Almofada


13/11/2006


Eles preferem sem camisinha

A camisinha foi criada entre os séculos XVI e XVII, para tentar frear a rápida disseminação das doenças sexualmente transmissíveis na Europa. Hoje, é um artigo indispensável para todas as pessoas que possuem uma vida sexual ativa.

 

Entretanto, a camisinha não está presente apenas na vida das pessoas sexualmente ativas, mas também na vida de pessoas que possuem uma vida sexual mais apagada, como os publicitários à procura de emprego, que não têm tempo para nada, senão melhorar o portfólio.

 
Esta semana, enquanto arrumava a minha pasta, comecei a fuçar os portfólios de outros redatores. Queria comparar o nível dos trabalhos que estão sendo apresentados nas agências com os meus.

 

Fiquei surpreso com uma prática que eu acreditei já estar superada depois do famoso “Manual do Estagiário” de Eugênio Mohallem: os anúncios de camisinha. A maioria das pastas que vi, de redatores mais experientes ou não, possuem ao menos uma peça na qual a protagonista é a tão famosa camisa de Vênus.

 

Eu também já fiz um anúncio assim para apresentar, mas, logo na primeira entrevista, recebi uma cara de “ok” seguida pelo comentário: “Sei que o briefing é conhecido e o produto possibilita inúmeros trocadilhos e brincadeiras, mas a camisinha já está saturada”.

 

Isso mesmo, ele recomendou que eu fosse na contramão de tudo que estão falando sobre sexo seguro e parasse de usar camisinha – no meu portfólio, pelo menos.

 

O momento da propaganda, e a grande concorrência, pede anúncios mais geniais e textos mais inteligentes. Pede idéias no mídia, de mídia exterior, idéias gráficas, enfim, idéias originais. E deixar a camisinha de lado é abrir espaço para gozar a liberdade de ter novas idéias para novos produtos.

 

Aproveite enquanto pode escolher em quem quer pensar. E não se apegue demais a qualquer outra marca. Seja poligâmico. E deixe a camisinha guardada em sua carteira, bolsa ou gaveta para ser usada em momentos mais especiais, depois que estiver numa agência e com tempo livre para se dedicar a outras causas.

 

 

Escrito por G.R.L e heterônimos às 19h41
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11/05/2006


Eu não existo sem você

Eu não existo sem você

 

Andava pela Rua Maranhão tranqüilo, sempre atento às árvores, aos pássaros e às merdas que ficam no chão esperando para serem pisadas por algum transeunte distraído.

De repente, não mais que derrrrepente (tudojuntomesmo), cruza com Venceslau Pietro Pietra, morador mais antigo do bairro de Higienópolis – mudou-se em meados de 1928, quando era perseguido por Macunaíma.

 Lembrou-se na hora de expressões como “Vá tomar banho” e “Aí que preguiça...”. Estava meio enjoado de viver. Queria se elevar ao céu. Sentia-se prostituído, sujo, cansado. Já tinha dado o bastante por um dia. Queria agora descansar. Mas, como todo bom puto, gostava da vida que levava. Era uma vagabunda, no pior sentido da palavra. Tinha a capacidade de esquecer que não tinha mais moral, mais valor. Apenas ideais escondidos em alguma parte do córtex, provavelmente perto de cerebelo.

A vida não passava de um antigozo, que chega escura, vermelha, toda molhada de suor.

Mas, por que continuar? Encontrou uma flor no deserto, uma pessoa capaz de surpreendê-lo todo dia, que colocava mais perfume em sua vida. Uma oração atendida, uma prece ouvida. Valeu a pena matar a galinha preta. Obrigado.

Escrito por G.R.L e heterônimos às 22h49
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11/02/2006


Detetive

Coronel Mostarda estava andando pelas ruas, calmo, talvez feliz, mas principalmente indiferente a tudo. Contava cada paralelepípedo por que passava - já estava no número 1.205.323 e meio - afinal, não tinha nada melhor para reparar naquela bela paisagem.

Estava cansado de algumas coisas, mas principalmente do cheiro que sentia, conseqüência do último charuto que fumara horas atrás, e procurava algum sentido para continuar andando – os paralelepípedos não eram mais suficientes.

Jogou alguns vinténs a um mendigo que estava sentado na calçada, provavelmente bêbado, mas logo lembrou que era o dinheiro do pão. Um sentimento de ódio assoprou-lhe o pescoço.

Sua esposa o esperava, fria como sempre, sentada na sala, fazendo blusas de tricô para dar de presente às suas maiores inimigas. O pescoço já estava queimado por causa da lã.

Ao encostar na maçaneta, sentiu um frio circular em suas mãos. Foi a melhor coisa que aconteceu em seu dia. Achou engraçado e entrou na sala. Observou Josefina sentada e lembrou-se da criação de ovelhas de seu pai, que hoje daria um grande prejuízo.

Como não tinham nada o que conversar, foi à cozinha, tragou alguns mililitros de Uísque, com “U” mesmo, e acendeu mais um charuto. Sabia que um dia morreria por causa desses vícios, mas não se incomodou nem um pouco. Ficou até tranqüilo.

Ao ligar o rádio, ouviu o locutor noticiar algumas tragédias. A única que chamou sua atenção foi sobre um carregamento de bebidas roubado na noite da última terça-feira. Meio embriagado de sono, resolveu desligar o aparelho e cochilar um pouco.

           

Escrito por G.R.L e heterônimos às 16h01
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12/01/2006


Se 1(um) é pouco e 2(dois) é bom, 3(três), por simples associação, só pode ser um-pouco-bom.

Escrito por G.R.L e heterônimos às 21h23
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11/01/2006


Calor insuportável, um bairro em coma, um comercial ridículo e a oportunidade de não escrever nenhuma  besteira.

"Fora admissível que Alexandre, o Grande - apesar das façanhas bélicas da sua mocidade, apesar do excelente exército que ele tinha preparado, apesar da capacidade que sentia em si para mudar a face do mundo - ficasse parado à margem do Helesponto, sem cruzá-lo jamais, e não por medo ou por indecisão ou por inércia: apenas pela ação da gravidade."

 

Não foi um começo bombástico, surpreendente ou impactante, mas foi um começo.

Escrito por G.R.L e heterônimos às 22h23
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